Entrada Dhamma Neru

Meu amigo Vitor Hugo já estava lá havia vários dias. Os servidores chegam antes, pra preparar o centro e se organizarem. Fui sozinho, o que eu achei muito melhor.  Comprei o trem pra Santa Maria de Palautordera por $3,40 (ida e volta) e esperei 20 min. Em menos de meia hora de viagem a paisagem de Barcelona já começa a mudar. Umas casinhas catalanas, muitos pinheiros… era verão e havia flores por toda parte. O trem pifou e eu vi que estávamos cercados de mato dos dois lados. Silêncio total. Excelente! Já cheguei muito relaxado ao curso!

Uma mãe com a filha catalana me ofereceram carona da estação de trem ao posto de gasolina onde começa a cidade. De lá comecei a andar pro Centro mas passaram duas mulheres numa picape que também iam pra lá e me reconheceram por levar uma esteira de espuma. Elas falavam muito. Acho que eu preferia subir a pé sozinho…

Chegando no centro já começa a separação das mulheres dos homens. Todos deixaram suas carteiras e celulares com a equipe. Outra coisa que tinha que ser deixada era material de leitura, aparelhos de som e qualquer objeto religioso. O curso pretende ensinar a técnica separada de qualquer religião, então terços, cristais, talismãs, santinhos e bonecas de vudú estão proibidos.

Assinei um termo de compromisso com o duro código de disciplina: Não matar; Não roubar; Absterse de todo tipo de atividade sexual; Não mentir e Não usar nenhum tipo de intoxicante. Além dessas regras está o Nobre Silêncio, que nos proibe de falar. Nem uma palavra pelos dez dias de curso. Isso parecia difícil no começo, mas foi moleza. No final do curso eu nem queria voltar a falar!

Me apresentaram ao coordenador, um garoto mais novo que eu. Futuramente eu o apelidaria Karma Police, na minha mente sedenta por distração. Ele me mostrou minha cama, beliche, no alojamento onde cabiam uns quarenta homens. O banheiro era único, mas tinha três chuveiros, três pias, três mictórios e três cabininhas de cocô. Não pude cumprimentar os colegas que já haviam chegado por causa do Nobre Silêncio.

Vaguei pelo jardim esperando o início do curso. Era muito bonito e eu admirei uma árvore que eu nunca tinha visto, galhos finos com umas flores compridas, cheias de bolinhas rosas. O céu também estava genial e eu sentí o grosso da neurose urbana sendo filtrado. O silêncio obrigatório ajudou muito nesse primeiro dia também.

O curso foi apresentado pelos coordenadores. Me apaixonei pela coordenadora das mulheres, Blanche, mas só voltei a vê-la dez dias depois. O resto do tempo as instruções seguiam o padrão internacional, dadas por um CD que em cada país é uma tradução exata do que o fundador, S.N. Goenka diz. Primeiro no inglês hilário com muito sotaque de birmanês dele, e depois em espanhol. A voz em espanhol era exageradamente relaxada. Irritou um pouco.

Eu tava morrendo de fome, mas serviram uma merendinha medíocre de granola ruim com iogurte natural. Vagamos todos pelo jardim, em silêncio, esperando o gongo da primeira meditaçao do curso. Nem contava como curso ainda, porque não tivemos nenhuma instrução. Simplesmente sentamos por uma hora e só nesse momento conseguí ver o Vitor Hugo, meditando lá na frente. Em todos os cursos há dois professores que meditam de frente pros alunos. Eles só servem pra inspirar e tirar dúvidas, porque os ensinamentos vêm todos das gravações.

O gongo diz pra ir dormir às 21:00. Eu só fui deitar lá pras 22:00, fala sério! Leve em conta que eu costumo ir dormir às sete da manhã, por causa do cassino.

Dia 01

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