Sou o anti-social de preto

Sou o anti-social de preto

No café da manhã um dos caras já começou a puxar papo. Um aluno antigo o censurou avisando que só seria permitido falar quando os organizadores avisassem oficialmente. Coitado, o cara tava na pressão! Fiquei com pena dele, mas também aliviado por saber que ainda teria algumas horas de silêncio. Num dos dias anteriores, não lembro qual foi, carreguei a sensibilidade ampliada comigo pra fora da sala de meditação. Foi mágico caminhar pelo jardim com tanta consciência do meu próprio corpo, incluindo o peso dos músculos, os sons, o tato dos pés, a brisa na pele, a respiração e dezenas de pequenas sensações sutilíssimas. Eu sabia que quando o diálogo fosse liberado seria impossível atingir esse nível fora da sala de meditação. Eu não queria conversar com ninguém de lá. Queria era ir pra casa. Confesso que planejei vários emails personalizados, mas chegando em casa essa ânsia por comunicação desapareceu. Só mantive a idéia do blog.

Depois do almoço anunciaram a abertura das comportas do Encierro de San Fermin e a galera desembestou a falar. Pra mim o curso de meditação acabou ali. Virou curso de paciência e tolerância heheh, mas relax… Me identifiquei com o Sequelado, que também tentou se isolar num canto do jardim. Depois apareceu o Vitor Hugo e rimos muito falando mal dos cânticos do Goenka. Listei pra ele as suposições que eu fiz ao longo do curso sobre o que ele estaria pensando.  A maior parte se confirmou. Por exemplo: quando eu pedí entrevista com o professor pela segunda  vez, ele pensou: “O que que tem tanto pra perguntar?” Exatamente como eu previa. Por outro lado, ele também teve suas paranóias pessoais. Nos dias em que me via ainda sentado, apesar de já ter passado a hora da sessão, ele pensava: “Já não meditou demais? Quer me mostrar que tá inspirado?” É incrível como ninguém está livre de achar que o mundo gira ao redor de si mesmo, que tudo o que os outros fazem tem alguma relação com a gente. O hilário é que na verdade ninguém está nem aí pra ninguém! E mesmo que estivesse, isso não teria influência direta nenhuma, em nada do que fazemos. A influência só acontece a partir das nossas paranóias.

Vitor e eu nos divertimos muito essa tarde comentando sobre as pessoas que nos desconcentraram ao longo do curso simplesmente por serem quem são. Tipo o Seqüelado, o Lord Toskus e a gatíssima organizadora das mulheres. Comentamos sobre as outras mulheres também, porque vivíamos em áreas diferentes, mas meditávamos todos juntos. E o Vitor Hugo foi como servidor, então teve contato constante com as servidoras e tava com fogo no rabo.

Fiquei sabendo que o curso só acabaria amanhã depois do café da manhã. Isso ampliou muito meu mau-humor, porque eu pensei que voltaria pra casa hoje. Tentei evitar o pessoal frenético, mas não tem onde se esconder e sempre vinha um me perguntar o que eu achei do curso, de onde eu sou, etc. Teve um argentino, o Steven Segall, que me alugou com um papo meio doutrinário, repetindo tudo o que o Goenka falou ao longo do curso e adicionando comentários pessoais sobre o sucesso na vida e a felicidade. Exatamente as duas coisas para as quais eu mais despertei durante o curso, concluindo que não devem ser perseguidas e nem mesmo é bom pronunciá-las. O cara ainda veio falar do “O Segredo” um best-seller que virou filme que eu pessoalmente abomino.

A última sessão de meditação foi Metta-Bhavana, uma técnica de cultivo do amor desinteressado (Metta). Eu simplesmente não conseguí entrar no clima. Não tenho muito amor pela humanidade. Pelo menos vencí bem o desafio de não me sentir culpado. Me impressionou o meu vizinho de almofada de meditação. Chorou initerruptamente ao longo da sessão. Ele deve ter sido pego de surpresa. É muito libertador você diminuir tão rapidamente seu ego, focando no amor por outras pessoas. Eu não estava no clima, mas conheço a sensação.

O discurso foi um resumo de todo o curso. Começou explicando a tomada de refúgio nas Três Jóias e no compromisso com os Cinco Preceitos. Insistiu que não era religião… Depois falou do render-se aos ensinamentos e do progresso no aprendizado da técnica: Primeiro o foco na respiração (anapana), de preferência sem mantras nem visualizações. Depois vem a observação das sensações do corpo, escaneando da cabeça aos pés. Pela observação do corpo automaticamente ocorre a observação da mente, dos desejos e aversões. Fiquei sabendo que existe um discurso do Buda explicando detalhadamente a técnica. É o Satipatthana Sutta. Vou procurar um dia.

Pra finalizar, o Goenka ressaltou a importância da equanimidade, da atenção e da dedicação. Aconselhou a não ficar vagando de técnica em técnica, mas focar em uma técnica e ir aonde ela te levar. Foi bom ouvir isso, porque fundei uma comunidade de técnicas de meditação no Orkut há três anos e nunca aconselhei ninguém a se entregar a uma técnica só.

O falatório continuou até 1:30 apesar de estarmos acostumados a deitar às 21:30. Pra mim foi um exercício definitivo de metta, embrulhado no edredon, travesseiro cobrindo a orelha, lutando contra o cultivo da raiva. Os espanhóis falam muito, e acho que o homem espanhol fala mais do que a mulher.

Dia 11!