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romantic hamsters in loveNo âmbito da consciência dita espiritual, poderíamos classificar as relações como “Relações Românticas” ou como “Relações de Amor Contínuo”.

Numa relação romântica estamos apaixonaaados pela outra pessoa. Nos sentimos especialmente vivos. Finalmente encontramos um foco para nossa vida! O resto do mundo perde importância e tudo é mais leve. Encontramos alguém que merece toda nossa atenção e essa pessoa pensa o mesmo de nós, fazendo com que nos sintamos especiais. Quando estamos juntos, estamos completos, que bonito! É uma relação perfeita. Enquanto dura…

Queremos possuir essa pessoa; E também queremos que ela nos aceite do jeito que somos, em todos os aspectos. Não queremos dividí-la com mais ninguém; mas também queremos manter nossa individualidade. Queremos ser influentes na vida dessa pessoa; E também nos sentimos vulneráveis a ela, temendo ou ressentindo qualquer sinal de abuso. É uma relação defeituosa, convenhamos.

romantic cats in loveOs ciclos de amor e ódio são muito comuns nas relações românticas. Alguns casais são até viciados nessa montanha-russa, porque sabem que é esse contraste o que mantém viva a chama da paixão.

No amor contínuo, os ciclos de amor e ódio são inúteis. A relação é nutrida por uma coisa que vem de fora, muito além dos pares de opostos da mente.

Numa relação de amor contínuo, os dois estão conscientes de si mesmos. Ambos estão presentes no aqui e no agora, em sintonia com o vazio infinito que engloba as coisas, os pensamentos e as emoções. Nenhum dos dois se identifica com seus pensamentos, evitando assim padrões mentais repetitivos, comportamento condicionado e representação de papéis nocivos. Até mesmo a forma de fazer sexo é diferente, muito mais plena.

Quando deixamos de acreditar num “eu” fabricado, descobrimos que não podemos possuir nada neste mundo, muito menos outra pessoa. Quando deixamos de resistir ao que já é, aceitamos as “imperfeições” do outro e as nossas próprias. Entendemos que somos o que somos, independente do julgamento de quem amamos. Quando todos os jogos da mente se acabam, não há lugar para vítimas e algozes, nem acusadores nem acusados. Só há amor. Continuamente.

romanceAssim como é difícil achar pessoas plenamente conscientes, também são raras as relações de amor contínuo. Mas as pessoas imersas em suas mentes-egos às vezes sobem à tona para respirar consciência por um tempo. Da mesma forma, as relações românticas às vezes assumem um estilo de amor contínuo, em momentos de ruptura da mente, breves e mágicos.

Sebastian Valle

outros artigos

Breve História da Humanidade

Breve História da Humanidade

Sempre tem um malandro que quer levar vantagem sobre os outros. Isso foi observado desde o início da história das sociedades humanas. Movido pelo medo e pelo desejo, esse sacana mesolítico mentia, roubava, matava e estuprava. Esse macaco egoísta é você e eu.

No artigo anterior vimos que o egoísmo é a origem de todo sofrimento e desordem. Levantou-se a possibilidade de estarmos condicionados a acreditar que o sofrimento é uma característica inseparável do ser humano. Achamos que o homem não tem jeito. Como esse condicionamento pessimista foi acontecer?

O ser humano é movido por desejos de segurança física e psicológica, ânsia por prazer e estímulos em geral e, principalmente, por medo de perder tudo isso. Essa é nossa herança animal, e é tão forte que parece irremovível. Conforme as sociedades foram percebendo que o egoísmo gerava os problemas, foram criando regras para contê-lo. No início ninguém pensou em tratar os impulsos primitivos diretamente. Parecia muito mais fácil e rápido focar numa ideologia geral e mantê-la usando instituições: Polícia, Família, Educação, Religião, Partidos, etc.

Funcionou? Até certo ponto sim, porque seguimos esses modelos até hoje. As instituições se transformaram muito, e seus níveis de influência foram se alternando, mas o foco no coletivo e na ideologia geral de cada sociedade se manteve. Fizemos grandes revoluções; queimamos bruxas; unificamos feudos; decapitamos reis; industrializamos nossas vidas; impomos nossa ideologia a outros povos; queimamos sutiã; dançamos pelados no parque; veneramos uma maçã mordida e vibramos ouvindo “Yes, we can”. Mas não acabamos com nosso condicionamento.

(O comunismo merece um capítulo especial. Na teoria chegaram bem mais fundo na busca pela raíz do problema. Ainda assim, foi apenas outro sistema social. No parágrafo acima vimos que as mudanças sociais são apenas superficiais no que se refere ao fim do sofrimento e à liberação da humanidade. Os sistemas sociais tratam o problema por partes, apenas combatendo os sintomas. Os comunistas podem dizer que “não foi feito corretamente” ou o clássico “fomos traídos”. Mas traídos por quem? Nós somos a sociedade! “I am the world” diria o Krishnamurti.)

Na própria origem, as sociedades são criadas por impulsos primitivos e condicionamento: Medo, insegurança, desejo por poder, etc. Depois de tantos séculos de fracassos, acabamos acreditando que é natural que as pessoas mintam, roubem, matem e estuprem. “Se nenhum sistema social conseguiu eliminar nosso egoísmo significa que ele é intrínseco à condição humana. Tudo o que podemos fazer é direcioná-lo de modo menos nocivo”… Será? Pensando em Lao Tsé, Buda, Jesus e alguns gurus da atualidade, eu discordo.

Ilustração do Mestre Milo Manara

Gorila fala a LIBRAS

Gorila fala a LIBRAS

vimos que existe o sofrimento psicológico. Concordamos que todos querem evitá-lo, de preferência pra sempre. Se você acompanha este blog é por que não aceita que o sofrimento é uma coisa “normal”, que sempre foi e sempre será assim. Nós, os buscadores, acreditamos em uma transformação profunda do Ser Humano, que elimine as causas do sofrimento. Eu gostaria muito que algum especialista em genética, psicologia ou sociologia comentasse aqui no blog quais são as causas evolutivas do sofrimento. Qual é a necessidade do sofrimento na perpetuação da Humanidade. Quais são os aspectos indesejáveis mas irremovíveis da alma humana. Enquanto isso vamos começar examinando as causas que os santos e budas consideram removíveis (e que por isso são crucificados):

“Mestre, quais são as causas do meu sofrimento? Como posso trazer e manter a felicidade em mim? Como eu posso atingir minha iluminação?” De acordo com Krishnamurti, a causa principal se mostra abertamente na própria pergunta: “Meu, mim, eu, minha” Todas as coisas que consideramos problemas estão centradas em nós mesmos. São nossos desejos e nossos medos. Tudo o que nos atrai e tudo o que nos repele gera sofrimento. O egocentrismo gera todos os transtornos internos e todos os conflitos sociais. Alguém pode dizer que isso é culpa do capitalismo de consumo, que estimulou a satisfação pessoal a qualquer preço. A publicidade promovendo a busca de uma identidade individual diferenciada… Mas se observarmos diferentes épocas, diferentes culturas, diferentes sistemas, veremos que o egocentrismo está sempre presente. E sempre gerando conflitos, em sociedades humanas ou mesmo animais:

Entre os gorilas e os cervos há sempre um macho que monopoliza as fêmeas. Nenhum outro macho pode se relacionar com elas a não ser que vença o líder numa luta de vida ou morte. A carga genética fica limitada a apenas um indivíduo, facilitando o aparecimento de pandemias e outros problemas. Evolutivamente falando, esse monopólio não faz muito sentido. E as galinhas que se bicam apesar de haver comida para todas? Esses são exemplos de comportamento irracional que vemos muito claramente nas sociedades humanas.

cococó DNA!!!

cococó DNA!!!

A diferença é que nós sabemos que isso é irracional. Nós sabemos que herdamos a Lei do Mais Forte dos nossos antepassados. Mas apesar de todo nosso conhecimento e consciência, ainda estamos condicionados ao comportamento animal. Mas esse comportamento é necessário hoje em dia? Esse condicionamento é irremovível? Será que também não estamos condicionados a acreditar que “as coisas são assim” e ponto?

Siga o raciocínio aqui.

lion zebra
Romeu & Julieta

Vamos bem devagar desta vez: Há sofrimento? Sim. Eu sei porque o vivencio eu mesmo e também o observo em todas as outras pessoas. (Nos primeiros artigos deste blog eu até proponho que somos todos transtornados de múltiplas personalidades) Um Ser Humano sempre sofre conflitos internos, tem conflitos com outros seres humanos e vive em conflito com a Natureza. O Ser Humano tá ferrado. Esta é a premissa deste blog.

Agora só um passinho à frente: Queremos o fim desse sofrimento? A resolução dos conflitos é desejável? Ou é gostosinho viver transtornado? Mais uma vez eu vivencio e também observo nos outros o desejo pela cura. Inclusive inventamos milhões de nomes pra essa cura: Liberação, Vida Eterna, Iluminação, Nirvana, Plenitude, Harmonia com o Tao, Imunização Racional

Por outro lado, muita gente não acredita que seja possível livrar-se do sofrimento. Acham inclusive perda de tempo e energia dedicar-se a atingir essa meta impossível. É que o transtorno e o conflito fazem parte inseparável do “eu”. E os conflitos estão por toda parte na Natureza. Não são exclusivos do Ser Humano. O leão vive em conflito com a zebra e com outros leões; As ondas vivem em conflito com as pedras; A grama vive em conflito com a vaca… Estes são apenas exemplos do que nós rotulamos como conflitos. Com nossas mentes humanas decidimos que isso é conflitivo e indesejável. Mas nem o leão nem a zebra enxergam as coisas dessa forma. Provavelmente o conflito só exista na mente humana mesmo, decidindo, escolhendo, rotulando e desejando. Os defensores da cura para o sofrimento acreditam que nossa própria mente deve ser o nosso foco nessa busca tão polêmica.

zebra kick lion
Julieta 1 x 0 Romeu

“Ah, é? E se o leão te atacar? Ou a onda te afogar? Você vai cantar hare-krishna?” Não. Eu pessoalmente estou no time dos que acreditam na liberação, mas eu sei que existem dois tipos de sofrimento. O primeiro chamemos de sofrimento físico: Ele é inevitável, pois inclui fome, doença, velhice e ataques de leão. O outro podemos chamar de sofrimento psicológico, que inclui ansiedade, frustração, raiva, medo e outras emoções/sensações indesejáveis, mas não inevitáveis. Provavelmente essas emoções não são mais necessárias, evolutivamente falando! O Ser Humano TEM que sofrer assim? “Bom, TER não tem… mas isso é normal. Sempre foi assim e sempre será” Se você pensa assim, acabou este blog.

Siga o raciocínio aqui ou leia um pouquinho sobre meditação.

Enso
Enso

O termo meditar tem duas interpretações, que aqui vou chamar de ocidental e oriental. Na forma ocidental meditamos sobre alguma coisa. Nos propomos a resolver uma questão através do pensamento e nos focamos nessa questão. Para sair do labirinto, analizamos todas as variáveis e vamos e voltamos por todas as possibilidades de caminhos. Um bloco de papel e caneta podem servir como um barbante, marcando os caminhos passados.

Na forma oriental também meditamos sobre. Mas sobre todas as coisas. Sendo todas as coisas infinitas, a única maneira de fazê-lo é meditando sobre coisa nenhuma. Porque é no vazio da xícara que se depeja o café-do-Universo. Nos propomos a dissolver todas as questões, cientes de que elas só existem na nossa mente. Sem focar em nenhuma questão, as infinitas coisas passam rápido pela mente-labirinto, como micro-experiências em um fio de barbante. Em dado momento já não há barbante. As coisas já não são uma linha. São um ponto. Esse ponto inclui todos os barbantes e todos os labirintos.

Agora podemos nos levantar e tentar resolver qualquer questão no mundo, sem medo e sem orgulho, sem ansiedade e sem preconceitos. No bloco de papel estarão todos os caminhos passados, na forma de uma folha em branco. Você pode apoiar o seu café-do-Universo em cima dela, marcando um belo Ensô.

Em psiquiatria, um Transtorno de Múltiplas Personalidades é considerado um “transtorno dissociativo”. Essa dissociação refere-se a perdas de memória e atenção, mas principalmente a rupturas de personalidade e de percepção do mundo.

DescartesDescartes, aquele cara do “Penso, Logo Existo”, é o pai da filosofia moderna e figura-chave da Revolução Científica que deu origem ao nosso atual estilo de vida. Ele era um transtornado. E de múltiplas personalidades!

Pra chegar à conclusão do “Penso, Logo Existo”, Descartes tem necessariamente que estar dissociado (usando a terminologia psiquiátrica). Quem pensa? Existe um Descartes que pensa e outro que percebe que pensa.

Existe um eu-observador “dentro-fora” de cada um de nós.

Em psicologia eles chamariam esse observador de “inconsciente”, mas se você parar pra pensar, na verdade ele é aquilo que está consciente o tempo todo. Quem está inconsciente é o nosso eu-pensante. Ele não tem consciência de que está analizando e filtrando a realidade de acordo com seus pré-conceitos.

dt suzukiO eu-pensante tem um nome, sexo, profissão, enquanto o observador está livre desses rótulos e pode ir muito além.  O pensador nasceu, cresceu e chegou onde está passando por várias experiências que moldaram seu comportamento. Aquilo que observa existe agora, e só agora, renovando-se a cada milésimo de segundo, aberto ao presente, sem usar o passado como referência. Nossa identidade pensante faz planos e deseja uma realização no futuro. O observador já está realizado, porque se realiza na simples existência, na simples constatação do “existo”. Aquele que pensa gosta de catalogar tudo o que percebe em pares de opostos: bom/ruim; útil/inútil; verdadeiro/falso e também analiza os tons de cinza entre os extremos, dando nome a tudo. Nosso eu mais profundo percebe o mundo de maneira direta, crua, ingênua, que o monge zen D. T. Suzuki chamaria de Mente de Principiante. “Quando as portas da percepção estão abertas, o Homem percebe as coisas como são: Infinitas”, citando William Blake.

abraham-isaacNão estou sendo original: Quatro mil anos atrás Abraão entrou em contato direto com a Criação, sem pensar, e concluiu que não pode haver vários deuses. Apenas uma inteligência pode movimentar tudo isto em tão perfeita ordem. Enquanto isso, na India, os Upanishads eram escritos por sábios que perceberam que temos um “eu-apenas-observador”, que chamaram de Atman. Isso deu origem à Vedanta, a filosofia hindu de auto-realização. Para os vedantistas não há diferença entre Atman e Brahman (Deus).

Hindu era Sidhartha Gautama, o Buda. As bases da sua filosofia são anicca, dukha e anatta. Impermanência, Sofrimento e Não-eu. Tudo muda o tempo todo. Sofremos porque estamos perdidos em pensamentos. Não existe algo real ao que chamar de “eu”.

taoA filosofia de Buda se espalhou pelo mundo e encontrou-se com o Taoísmo na China. Essa fusão deu origem ao Chan-budismo (Zen-budismo, no Japão). Os taoístas acreditam que o Tao é a essência do Universo, sem nome, vazia. Tao também é o nome do Caminho para chegar a essa essência, buscando uma espontaneidade natural, livre de pensamentos. Seu símbolo representa os pares de opostos-complementares, indicando que somente na nossa mente as coisas se diferenciam e se separam. Quando Confúcio se encontrou com Lao-Tsé, o escritor do Tao-Te-Ching (bíblia do taoísmo), sentiu-se inundado por um oceano de sabedoria. É que o sistema de pensamento de Confúcio era excelente, mas girava em torno do conhecimento, da ética e da vida em sociedade. O Tao abranje tudo isso e muito mais, saindo de qualquer sistema de pensamento.

jesusQuinhentos anos depois, Jesus Cristo afirmou que não precisávamos de nada externo para sermos plenos. Ele instruiu seu discípulos a abençoarem as pessoas “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” ou seja: Deus criador, a criação (nós) e a divindade inerente a tudo. A Igreja Católica separou esses três conceitos, mas muitas linhas de cristianismo concordam que a Santíssima Trindade se refere à mesma coisa.

Abraão, Buda, Lao-Tsé, Jesus, William Blake e Suzuki tinham dupla personalidade, então? De certa forma sim, mas agora pensando melhor: Essa entidade que eu estou toscamente querendo apontar com palavras, não tem identidade, não tem personalidade. Todos temos uma personalidade que se separa da Natureza, que vive habilmente no mundo físico e pensa que a Humanidade evolui. Mas também temos o poder de observar sem julgar, de aceitar, de viver o presente, em harmonia com tudo, criativos, espontâneos, satisfeitos, plenos. Basta deixar os pensamentos de lado quando eles não forem necessários.

Não há transtorno algum. Somos isto sem deixar de ser aquilo.

Siga a linha de raciocínio aqui ou leia um pouquinho sobre meditação.