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Ontem li na revistinha inglesa New Musical Express que em Dezembro deste ano David Lynch vai pra India. Ele quer gravar um filme sobre o Maharishi Mahesh Yogi!
David Lynch é o diretor da série de televisão Twin Peaks e de dez filmes, entre eles: O Homem Elefante, Veludo Azul e Cidade dos Sonhos (Mulholand Drive), meu preferido.
Maharish Mahesh Yogi foi o introdutor no ocidente da Meditação Transcendental, uma famosa técnica de mantra-yoga. Ele ficou famoso ao receber os Beatles na India nos anos 60. Talvez David Lynch chame o Paul McCartney e o Ringo Starr pra participarem do filme…
O polêmico diretor surrealista veio ao Brasil em Ago/2009 pra divulgar seu livro Em Águas Profundas – Criatividade e Meditação. Só hoje, meses depois, achei esta entrevista genial dada por ele ao jornalista e crítico de cinema Mário Fanaticc Abbade, no site do Jovem Nerd:
Fanaticc: Para muitas pessoas o ideal seria trabalhar em um local alegre livre de energia negativa. Como a meditação transcendental ajudaria nisso?
David Lynch: Eu sempre digo que gosto de trabalhar em um set (estúdio de filmagem) feliz, como uma família em uma viagem. E eu gosto de um set que seja seguro para os atores, para que possamos ir mais a fundo e tornar as coisas mais reais. Eu acho que medo e pressão no set “machucam” a criatividade e o trabalho.
Eu acho que um negócio gerenciado baseado em medo faz com que os empregados não gostem de ir ao trabalho, e que não queiram se esforçar pela empresa. Faz com que isso não ajude as pessoas que trabalham em uma empresa assim. Eles vão para casa com essa tensão para suas famílias e com o tempo passam a odiar ir para o trabalho e esse ódio vira raiva. Então, é bom senso ter um ambiente de bons sentimentos no trabalho e esse se torna um lugar muito melhor para todos em volta.
Fanaticc: Gostaria de saber se você conheceu o Maharishi Mahesh Yogi (fundador do programa da Meditação Transcendental), e se você teve uma sessão com ele?
David Lynch: Sim eu conheci o Maharishi. Mas ele não me ensinou minha meditação. Maharishi costumava a ensinar a todos, ele mesmo. Mas passaram a ser pessoas demais e ele treinou professores que passam o conhecimento exatamente da mesma maneira. Ensinam de uma forma bem específica. Quando você compra um Rolls Royce não importa quem o vendeu, você vai dirigir um Rolls Royce. Então, você recebe o ensinamento correto e a técnica.
Sabe que fará a meditação do modo correto, tem suas perguntas respondidas e então tem a técnica para o resto da sua vida. Desdobra todo seu potencial, a felicidade, a criatividade, a inteligência, o amor, a energia, desde o primeiro momento. A meditação transcendental é uma técnica mental, uma forma antiga de meditação, trazida ao nosso tempo pelo Yogi Maharishi Mahesh. Qualquer ser humano pode usar essa técnica, se achar a chave para abrir a porta para o mais profundo nível da vida. Ciência moderna unida ao antigo oceano da pura consciência vibrante e amplamente desperta, que sempre existiu. Campo eterno, campo infinito, sem limites, que se baseia em matéria e mente. Você tem um mantra, um som bem específico de vibrações e pensamentos.
O mantra de Maharishi torna a consciência interna em um mergulho natural nos profundos níveis da mente e do intelecto e então transcende. Experimenta esse oceano, experimenta uma consciência viva e todas essas qualidades positivas. E tudo na sua vida que sempre foi igual passa a se expandir, todas essas qualidades positivas passam a se expandir. Em pouco tempo, a vida se torna muito boa.
Fanaticc: Você poderia nos dizer qual é seu mantra ou é pessoal? Aliás, lendo seu livro, as pessoas encontram seus próprios mantras ou precisam de um instrutor?
David Lynch: Você não diz seu mantra. O mantra é para ficar dentro de você. Você não o traz para fora. E podem existir milhares de mantras, como meu amigo Charlie Lucci dizia, “Se você medita usando a palavra ‘buttermilk’, você pode terminar em uma leiteria”. Você não quer parar em uma leiteria, você quer transcender experimentando o mais profundo nível da vida. Um mantra é uma coisa muito preciosa, ele tem que ser um suporte para a vida em todos os níveis profundos.
A ciência moderna descobriu um campo unificado, indo cada vez mais fundo na matéria. Na base da matéria achou o campo unificado. Eu viajei com um dos maiores físicos quântico do mundo, e ele te diria que o campo unificado é dez milhões vezes dez milhões vezes dez milhões vezes mais poderoso que o nível atômico, uma criação. Sabemos que o nível atômico é muito poderoso. Todo o poder no campo da gravidade vem desse campo unificado. E um outro campo surge desse campo, um muito especial, puro livre de consciência própria, a própria vida. Nós só podemos dizer “Eu sou”, por causa da consciência. As pessoas acreditam que quando acordam pela manhã, todos despertam da mesma maneira. Não é verdade, estar realmente acordado é esclarecedor. Então, você está 40% acordado, 60% confuso, como o Maharishi diz. 70 % acordado, 30% confuso.
Totalmente desperto é esclarecedor, e o esclarecimento é a única maneira de estar realmente desperto. Todo ser humano tem esse potencial. O potencial total do ser humano é chamado de esclarecimento. Mas precisamos desdobrar isso. Os efeitos colaterais de expandir o esclarecimento é o fim dos pensamentos negativos. Nas escolas há muito estresse, muitos problemas, quase nada consegue aumentar. Eles levam os problemas para casa, depois trazem os problemas de casa de volta à escola, é um pesadelo. Dezesseis escolas passaram a ser por cotas nos EUA.
Um ano antes de começarem, violência, tiroteio, facadas, suicídios, estresse, estresse e mais estresse. Muito pouco aprendizado. Eles começaram a usar a meditação transcendental há um ano e tudo mudou radicalmente. Passaram a ser escolas que todos gostariam de freqüentar, as brigas acabaram, as revoltas também. As relações pessoais melhoraram.
Felicidade, amor próprio aumentaram e pararam de se preocupar com as crianças. Tudo porque usaram a técnica de ir ao nível mais profundo, mergulhar nele e experimentar e desdobrar isso automaticamente. Tudo melhorou automaticamente. Você não precisa acreditar em nada. Não é uma religião. Não é contra nenhuma religião. Não é um culto. É próprio do ser humano. E as pessoas passam a falar. Você passa a ouvir mais e mais histórias. Não é uma coisa estranha, é uma coisa do ser humano. E você passa a ouvir historias, porque as pessoas tentam tantas outras coisas. Elas acham que meditação é muito estranho para usar em escolas e agora descobrem que estranho é não usa-la nas escolas.
Fanaticc: Você disse que existem 16 escolas usando esse método nos EUA. E fora dos EUA?
David Lynch: Acho que podem te dar o relato do que acontece na América do Sul pela David Foundation, que ajuda a 41 mil estudantes no Brasil, na América do Sul. Também tem dois países na África e começamos a ajudar universidades dinâmicas em todo o mundo. Para ter paz, e sei que isso poder parecer estranho, para ter paz, a única coisa que se precisa é de 1% da população fazendo meditação transcendental e suas técnicas avançadas juntos em um grupo, duas vezes ao dia.
O grupo se tornará poderoso através do campo unificado, um grupo que se tornará tão esclarecido, tão poderoso, que afetará a consciência coletiva. E o mesmo acontecerá com todo o país, onde a negatividade acabará e a felicidade se espalhará. A criatividade, inteligência, problemas acabarão e a paz chegará. E eu gostaria de dizer mais uma coisa.
É a coisa mais agradável de se pensar. Se você ouvir sobre uma lâmpada que não acaba com a escuridão, você não ouviu sobre uma lâmpada. Se você ouvir sobre planos de paz, que envolvem pensamentos negativos, você não ouviu sobre verdadeiros planos de paz. Isso acaba com a negatividade. A verdadeira paz não está relacionada com a falta de guerra, mas sim com a falta de sementes de guerra, que é a negatividade. Você tem a verdadeira paz e esclarecimento em união.
Fanaticc: Em relação ao bem e ao mal, o mundo contemporâneo é um lugar negativo e escuro?
David Lynch: A História tem seus contrastes, tem alterações no passado e esperança no futuro. Grandes histórias têm seus contrates e sempre terão. Muitas histórias, que estão nos livros, refletem o mundo que vivemos, e vivemos em um mundo de negatividade. Muita negatividade. Ouvimos que o mundo está melhor, mas vemos as coisas como são e estão bem ruins. Mas acho que já está melhorando.
Fanaticc: Você vai encontrar com o Presidente Lula? Quais são suas intenções? O que você vai discutir com ele?
David Lynch: Eu acho que ele vai estar nas Olimpíadas, então não vou encontrá-lo, mas se eu fosse, eu falaria sobre uma Universidade para o Brasil, onde os estudantes praticariam o aprendizado da meditação transcendental, método e técnica, em grupos, duas vezes por dia. E então essa Universidade ensinaria todos os cursos normais. Falaria sobre utilizar a meditação em todas as escolas, no Brasil. E se livrar do estresse nas escolas, e qualquer tipo de violência no país.
Fanaticc: Tive oportunidade de ouvir o seu livro em “audiobook” e achei muito impactante. Você pensa em lançar dessa forma aqui no Brasil? Se sim, quem poderia substituí-lo?
David Lynch: Não faço a mínima idéia de quem poderia me substituir. Acho que seria ótimo se alguém quisesse fazer isso, mas posso praticar e aprender português (risos).
Fanaticc: Você poderia falar sobre a metáfora do título “Catching the big fish” (na tradução: pegando um peixe grande)?
David Lynch: Esse título vem da natureza das idéias, e as idéias são como peixes. Quando você vai pescar você precisa de paciência, um anzol e isca. Quando você vai caçar idéias é a mesma coisa. Paciência e uma isca, para pegar idéias que são antes desejos. Um desejo é como uma isca. Um foco é como uma isca. O quão fundo esse anzol vai depende da consciência. Nós não sabemos nada sobre essa consciência, antes é o subconsciente ou inconsciente.
E quando atingimos a consciência, bingo! Nós sabemos. Então, ir pescar idéias é acabar com a sede de desejo que um dia podemos encontrar-lo. Dar de cara com o peixe pelo qual iremos nos apaixonar, e esse será um dia lindo. Para mim não quero me contentar com uma única vez, então vou pescar de novo. Quando você consegue esse primeiro peixe, ele se torna uma isca para um maior, para mais peixes.
Fanaticc: Você fala sobre alegria através da meditação, mas isso é possível no mundo de hoje?
David Lynch: A História sempre teve contrastes momentos tristes, negativos e momentos bonitos também. A História reflete o mundo que vivemos hoje e muitas idéias vem desse mundo, e vivemos num mundo negativo. Mas eu sou contra a idéia de que temos que sofrer para mostrar o sofrimento. Nós devemos entender o sofrimento, entender a condição humana melhor.
A meditação vai fundo em tudo isso, ela ajuda no entendimento, esclarece tudo aumentando a consciência para o campo das idéias e nos mostrando mais informações. Logo, o entendimento é maior. A meditação alimenta o trabalho. Intuição é a ferramenta primordial do artista e permite mergulhar no oceano da sabedoria. Por isso é muito critico ao trabalho quando as coisas não correm bem, e a intuição não funciona. Soa como se isso fosse obvio a todos, mas há graus de intuição, quanto mais você tem, mas corretamente você enxerga como deve trabalhar.
Fanaticc: Ainda sobre a meditação, é possível pegar o peixe grande antes do pequeno?
David Lynch: Tudo é possível, mas você não sabe até ter consciência. Não importa o tamanho do peixe. Podem ter peixes pequenos que vão despertar pouco de sua consciência, mas se você mergulhar nela mesmo assim, acabará expandindo sua criatividade e felicidade. Tem esse senhor sentado aqui do meu lado, um grande poeta, cantor, compositor e trovador: o grande Donovan.
Robert Roth: Uma das razões para o Donovan estar aqui conosco falando sobre a meditação é por ele ter conhecido o Maharishi com os Beatles há 40 anos, e ter passado essa meditação para toda uma geração. Para milhares de pessoas em todo o mundo e agora Donovan trabalha ao lado de David, na Fundação.
Fanaticc: Qual a diferença da meditação transcendental de 40 anos atrás para agora? Qual a diferença da recepção dela pelos mais jovens e o que você sente sobre isso?
Donovan: Há 40 anos eu e os Beatles dividíamos um sentimento em relação a falta de alguma coisa que inspirasse os músicos e sentíamos falta de algo que inspirasse o mundo, quando encontramos um yogi, e um mantra de Maharishi. Fomos até a Índia estudar e quando voltamos apresentamos essa extraordinária, antiga e eficiente técnica para milhões de pessoas.
Por isso me senti muito feliz quando fui convidado a participar da Fundação cuidando da parte musical, o que parecia uma coisa natural e aqui estou, mostrando à vocês minhas idéias sobre o que mudou nesses 40 anos. Há 40 anos Maharishi introduziu esse método de meditação a indivíduos que o procuraram e eu fui um deles. Quando voltei, Maharishi continuou ensinando sua meditação à indivíduos. Em alguns anos ele construiu uma organização extraordinária, onde a meditação passava a ser apresentada a escolas e profissionais médicos, além de grandes corporações, que incorporaram essa técnica extraordinária, em suas vidas particulares, em suas empresas, escolas, e na saúde, já que muitos médicos aprenderam a técnica. Anos depois é magnífico o resultado.
Escolas em todo o mundo mostraram resultados incríveis, as pessoas se tornaram mais suscetíveis ao que aprendiam e o mais importante, alguns governantes passaram a prestar atenção com mais cuidado a esse tipo de meditação. Visando uma sociedade mais esclarecida e livre de violência. Há muito o que aprender através da Fundação e eu pessoalmente estou maravilhado. Falei com o Maharishi 40 anos atrás e ele disse, “Você construirá uma universidade chamada Invencible Dawn University, na Escócia”. 40 anos depois eu anuncio que construirei essa universidade porque essa técnica de meditação tem sido ensinada mais uma vez e de novo.
Fanaticc: Qual a relação da alimentação com a meditação?
David Lynch: Há muitas relações, principalmente em relação a agricultura que usa pesticidas e a agricultura orgânica que não usa. Há muito acontecendo entre a agricultura e esse ensinamento, há uma universidade nos EUA, que trabalha com sustentabilidade e crescimento rápido dos alimentos.
Robert Roth: Eu acho que quando passarmos a viver sem estresse pensaremos melhor sobre nossa comida e meditação. Naturalmente passaremos a comer melhor e a fazer coisas que nos façam sentir melhor. Não há “pode” e “não pode” para a pessoa que medita, sua vida apenas melhora, não há o que seguir, isso não é uma religião. Isso não é uma filosofia, as pessoas de todas as religiões podem praticar a meditação transcendental, mesmo as sem religião. É uma habilidade humana, como David e Donovan disseram, que desperta o corpo e a mente para uma consciência maior. Como resultado disso passamos a nos alimentar melhor.
Fanaticc: Como seu trabalho como artista plástico influenciou seu trabalho como diretor?
David Lynch: A pintura influenciou o cinema porque o cinema está relacionado às sete artes, qual não sei bem, mas visualmente, algumas coisas da pintura está relacionada ao trabalho no cinema. Eu queria ser apenas pintor, estava trabalhando em um estúdio, já contei essa história várias vezes. Estava pintando um jardim a noite, e as folhas verdes do quadro começaram a se mexer e então a pintura se tornou o vento, daí tive a idéia de uma pintura em movimento e isso me levou ao cinema.
Fanaticc: Todo mundo pode alcançar a consciência plena?
David Lynch: Se você é um ser humano você pode. Tudo pode ao ser humano, é um direito de nascença. E o esclarecimento é o futuro. Você só precisa se desdobrar.
(No fim da entrevista Fanaticc explica a David Lynch seus próprios filmes.
Educadamente, o cineasta agradece)
fonte: Jovem Nerd
Infelizmente não conheço a fonte original, nem a data desta entrevista que recebi ontem por email. Mas pelo vocabulário, e principalmente pela teoria, posso garantir que é o próprio Eckhart Tolle falando.
Jenny Simon – As pessoas ao seu redor devem pensar que você é um pouco lunático. Em sua experiência interior, você nunca questionou o que aconteceu?
Tolle – Não. Era muito claro e não havia nenhuma pergunta sobre uma realidade tão óbvia. Uma vez eu disse que mesmo se tivesse encontrado o Buda e ele me dissesse “Não, não é isso”, eu diria – “Que interessante. Mesmo o Buda pode estar errado”. Isto não é algo do ego, é só para deixar claro como essa realidade é tão óbvia que nenhuma questão mental, nenhuma pergunta adiantaria. Por exemplo, se alguém me desse uma maçã e dissesse “Não, não é uma maçã”, eu diria “Não, eu sei que é”.
Jenny Simon – Você aponta que seu estado de consciência implicou numa redução de 80% na atividade de sua mente pensante. Isso criou alguma espécie de carência ou algo parecido?
Tolle - Bem, não tanto para mim, mas para as pessoas ao meu redor (risos). Isso é certo, pois as pessoas que me conheciam, especialmente a família, pais, alguns amigos, pensaram que algo errado tinha acontecido comigo – isto porque por algum tempo, após a mudança, eu prossegui com as estruturas externas de minha vida. Apenas prosseguia como se nada houvesse acontecido, porque ainda havia um “momentum” e continuei seguindo-o durante três ou quatro anos. Então percebi que essas estruturas externas estavam totalmente fora do alinhamento com meu ser – no mundo acadêmico totalmente dominado pela mente, o ego dominando completamente. Então aconteceu um momento em que deixei tudo para trás…
Foi aí que as pessoas pensaram que eu estava realmente louco – abandonado uma promissora carreira acadêmica e indo sentar-me em um banco do parque, sem fazer mais nada. Era bem estranho, porque eu não tinha nenhuma orientação espiritual, ninguém para me dizer “Você não precisa viver no banco do parque, você pode continuar funcionando no mundo”. Eu defini isso por mim mesmo. E isso levou bastante tempo, para que então eu pudesse de novo continuar funcionando no mundo. Por uns tempos, o estado da presença, do ser, era tão satisfatório, belo e completo que perdi todo o interesse no futuro… quanto mais ter ambição ou viver para adquirir isto ou aquilo. Se o momento presente era tão preenchedor, por que precisaria do futuro? Mas naturalmente, no nível prático, o futuro ainda opera, e saber disso às vezes ajuda. Você precisa tomar um avião daqui a alguns dias, ou aprender algo que leva certo tempo, aprender uma língua, ou o que quer que seja. Mas eu não mais necessitava do futuro, internamente, e passaram-se anos antes que eu começasse a ser capaz de lidar com o mundo novamente, sem necessitar dele – era quase como uma forma de brincadeira. Iniciar coisas, fazer coisas e, miraculosamente, também um bom tanto de coisas vinham a mim… Mesmo enquanto estava sentado no banco do parque, com quase nada em meu bolso, geralmente no último momento alguma ocorria ou alguém vinha e novamente eu tinha algo com que viver, por enquanto. Milagrosamente isso sempre acontecia, e gradualmente, então, eu comecei a funcionar no mundo de novo.
Devo dizer que duas ou três vezes tentei voltar às estruturas do mundo, sentia que meu tempo no banco do parque estava terminando, então me dizia: “Ok, é melhor eu fazer alguma coisa”. Uma vez me candidatei a um emprego, e isso é bem engraçado, um emprego num banco mercantil na cidade de Londres (riso). Durante a entrevista, ouviram-me com interesse, mas não me deram o lugar. Depois candidatei-me a um emprego acadêmico e houve outra entrevista, só que devo ter dito algo, embora tenha procurado evitar a linguagem espiritual, mas… havia seis ou sete professores ao meu redor e ao final da entrevista um deles me perguntou: O que você realmente quer fazer? (riso). E na realidade não havia nada que eu realmente quisesse fazer, então essa foi a minha última entrevista – eu percebi que na realidade não queria voltar às estruturas do mundo.
Foi então que gradualmente as pessoas vieram e passaram a me fazer perguntas, começando com situações de ensino informal. Algo um pouco mais estruturado surgiu e então eu me tornei um professor espiritual aos olhos do mundo (risada). Foi isso o que aconteceu. Não ganharia um emprego se colocasse no meu currículo “Não mais preciso pensar”, mas realmente é o que acontece. O próprio poder de ensinar vem desse estado, da consciência. Não sou eu, e sempre que começo a falar tenho essa sensação de que não tenho nada, absolutamente nada, a dizer. Assim, não é realmente esta pessoa que está fazendo qualquer coisa. Todo o ensinamento que tem causado um certo impacto no mundo vem desse estado de não-pensamento, não tem nada a ver com esta pessoa aqui… (riso)
Jenny Simon – Eu ouvi você várias vezes citar o mestre indiano Ramana Maharshi. Como se mede o progresso espiritual? É pela ausência do pensamento? Você acredita nisso realmente?
Tolle – Sim, sim. No grau da ausência de pensamento, sim, está certo. É simples, muito simples.
A mente pode dizer: “Ok” – mas isto significa que não fiz nenhum progresso, porque estou pensando o tempo todo. Talvez você não saiba que já há ausência de pensamento em si, talvez algum breve momento, mas não importa… Você respondeu à beleza? Deve haver ausência de pensamento em você, porque de outra forma não veria a beleza. Esse momento é ausência de pensamento. Pode haver muitos momentos de ausência de pensamento – de repente você percebe: “Gente, há ocasiões em que o pensamento está ausente”. Ou você pode exclamar: “Oh! Eu não estou pensando!” (riso). E você já está pensando de novo. Algumas vezes você sabe que não está pensando e ainda não está pensando (riso). Mas é bom não tentar provocar esse estado, porque poderia ser um esforço muito grande. A forma mais rápida de tornar-se livre de pensamento é ainda render-se ao momento, aceitar este momento como ele é, porque se você observa o processo de pensar compulsivo, descobre que sempre está associado à não-aceitação. A não-aceitação é a característica essencial do estado egóico criado na mente – a não-aceitação do agora.
E toda a compulsão realmente é uma fuga, é o negar da beleza e da vida do agora. Quando você vê a verdade disso, pode aceitar este momento como ele é. É um estado de grande força – não de fraqueza, como a mente pode dizer-lhe, exceto que há um efeito colateral dessa aceitação, a mente deixada de fora, porque quando você não está lutando com o que é, a compulsão de pensar acaba.
Isso é algo que requer continuidade da prática espiritual. Muitas vezes você não aceita o que é e então percebe que está novamente negando o agora. E essa percepção está certa, quando você vê a não-aceitação, já está livre dela. Quando você não vê a não-aceitação, então fica novamente preso em todo o ruído mental, porque não está aceitando o que é.
Assim, a mais poderosa prática espiritual é aceitar este momento como ele é. Aceitação descomprometida deste momento como ele é. É por isso que grandes mestres às vezes parecem tão aterradores, embora sejam gentis internamente, na realidade. Olhando velhos retratos ou fotos de grandes mestres, seus olhos são tão aterradores. Sim, descompromissado agora, sim, não movendo, estando aberto. E este estado é tanto gentil quanto aterrador, ambos ao mesmo tempo. Então essa é a prática espiritual mais poderosa e é realmente a única prática espiritual que não lhe dá tempo (riso). Há tantas práticas espirituais que lhe concedem tempo para tornar-se um bom adepto, praticar mais e mais, gradualmente. Mas aceitar este momento como ele é, você só pode fazê-lo agora.
Jenny Simon – Freqüentemente temos ouvido você falar sobre a nova consciência que está emergindo e como esse estado está disponível cada vez para um número maior de pessoas. Mas, honestamente, não estou convencida de que isso não seja uma projeção de sua experiência. Não tenho dúvida de que você floresceu como ser humano, mas não vejo evidência, ao meu redor, de que muitas pessoas passarão por isso. Pergunto: você tem alguma premonição de que isso vai acontecer em 5, 10, mil anos? Como isso realmente transformará o mundo?
Tolle – Certo. Admito que pareço estar no epicentro da onda de transformação porque isso é o que eu faço e as pessoas chegam para estar em contato comigo. Todos que encontro estão sofrendo transformações e às vezes, quando ligo a televisão, sou repentinamente lembrado – “Oh! Não está acontecendo com todo mundo”. Por causa de minha posição peculiar, admito que certas vezes parece, para mim, que o mundo inteiro está se transformando. Ao mesmo tempo, recebo mesmo imensa massa de correspondência de pessoas que estão relatando mudanças na consciência e enorme diminuição do sofrimento, etc. Isso eu vejo em toda parte; porém não, não tenho uma escala do tempo, tudo que eu sei é que há uma aceleração de algo. Também sinto que o planeta provavelmente não sobreviverá outros cem anos se a velha consciência predominar por muito tempo no planeta, com tudo que isso significa.
É impossível que a natureza do planeta possa suportar isso. Assim, pela primeira vez na história humana essa transformação tornou-se uma necessidade, até mesmo para a sobrevivência da espécie. E talvez seja somente assim, em qualquer evolução e transformação, talvez seja apenas quando a espécie alcança um ponto crítico em que a sobrevivência fica ameaçada se ela continuar sem transformar-se – aí então essa transformação acontece em nível coletivo. Eu acredito – e posso dizer que é quase um fato – que se os velhos padrões de fazer as coisas continuarem por mais cem anos, e naturalmente esses padrões ficarão ainda mais ampliados, os meios de destruição serão maiores e o planeta não será mais capaz de sustentar a vida humana por mais cem anos.
Assim, pela primeira vez na história humana chegamos a um ponto em que a transformação da consciência não é mais um luxo. Talvez tenha havido no tempo de Buda os primeiros florescimentos, também no tempo de Jesus, já apontando para algo novo, uma maneira de ver o que estava acontecendo. Os primeiros sinais disso e depois algumas flores aqui e ali, mas nunca tinha sido uma necessidade para a sobrevivência do planeta e o fim da loucura humana. Mas depois veio a tecnologia, veio a ciência – sim, também manifestações de grande inteligência –, e ainda assim ampliaram a loucura em larga escala. Antes as pessoas tinham sorte se conseguiam matar uns poucos, agora podem matar centenas, milhões com um só aparelho (riso). Não há mudanças, simplesmente amplia-se o efeito da inconsciência. E é uma boa coisa, porque vemos mais claramente que nunca.
É chocante saber que a primeira guerra criou armas poderosas de destruição, provindas da tecnologia, e aí pensamos: O que foi que fizemos? Milhões e milhões de jovens morrendo nas trincheiras inutilmente – Oh, meu Deus – foi uma abertura da visão da loucura, lá no começo do século XX. Mas agora sabemos também o que aconteceu no restante do século.
Está em seu rosto agora, é tão óbvio. Eu sei que o trabalho que faço, qualquer que seja, é uma manifestação da nova consciência e há muitas pessoas atravessando isso. Para salvar o planeta? Eu não sei, talvez não.
Jenny Simon – Então, pode-se dizer que você é uma espécie de necessidade da evolução, de certa forma?
Tolle – Sim, na realidade é isto que está acontecendo. É quase como se a espécie estivesse se tornando algo novo, uma nova espécie está evoluindo da velha. E, novamente, não é algo do ego, dizendo: “Eu sou da nova espécie”, você já não é (riso). Mas sim, é bem como se uma nova espécie estivesse chegando, e está chegando porque a velha espécie não é mais capaz de sobreviver, a menos que mude.
Jenny Simon – E você pode descrever a nova espécie, quais seriam suas características?
Tolle – A nova espécie não necessita de inimigos, drama ou conflito para dar-lhe um sentido de identidade e assim, torna-se livre, em grande escala, do conflito e do sofrimento causado pelo homem, que é uma característica da velha consciência. Buda teve uma bela perspectiva disso, quando disse, para descrever o estado de consciência da liberação, que ela é livre do sofrimento – você não sofre mais. Pode ainda haver dor, porque enquanto houver corpo físico haverá dor, você pode ter uma dor de dente. Mas o sofrimento psicológico é causado pela entidade do eu na cabeça. Você não mais causará sofrimento para si próprio através das estruturas do pensamento. E quando você não mais causa sofrimento para si, não mais causa sofrimento para outros. A interação entre seres humanos não será mais coberta pelo medo, como é agora – o medo e o desejo, dois movimentos de estado inconsciente.
A interação humana será caracterizada pelo amor e compaixão. E o amor não será do tipo “Preciso de você, não ouse abandonar-me, porque eu não sei o que vou fazer se você me deixar”, o amor da chamada velha consciência. Amor é simplesmente reconhecer o outro como sendo você próprio. O reconhecimento da unidade é amor. E todas as interações, quando se reconhece o outro como você próprio, não mais acontecem através da formação de uma imagem, uma identidade da forma, de quem aquela pessoa é. E porque você vai além da identificação da forma em si própria, não mais constrói pequenas armadilhas e pequenos conceitos de outras pessoas… então o amor reina.
Não se pode conceber como seria o mundo se uma grande parte da humanidade vivesse nesse novo estado de consciência. Eu não faço, geralmente, considerações sobre esse fato. Minha suposição sobre isso é de que não seria possível reconhecer a estrutura da natureza humana. Seria muito diferente. Potencialmente este planeta poderia ser o paraíso – é um paraíso, mas as pessoas se esforçam muito para torná-lo um inferno, contudo ainda é um belo paraíso. Não estou dizendo que no nível da forma não haverá limitação, sim, as formas ainda vêm e vão. Mas ainda assim a harmonia é possível, viver em harmonia com a natureza. Viver em um estado de amor, amando a essência de cada forma, pois a vida se manifesta através de milhões de formas de vida. Amando uma vida da qual milhões de formas são manifestações temporárias, amando-as como a si próprio, sendo elas – esse é o novo estado de consciência.
fonte desconhecida
Oprah Winfrey entrevista Eckhart Tolle (em inglês)
Pessoalmente não tenho qualquer vínculo ou relação com esta instituição, mas Sei que pode interessar aos leitores deste blog.
Jardim do Dharma – Centro de Difusão do Budismo Tibetano Linhagem Karma Kagyu
Rua José Maria Lisboa, 577 – apto 2 – Tel. 0xx11 3884.8943
http://www.jardimdharma.org.br
jardimdharma@sbtcc.org.br
APRENDA A MEDITAR NA SEDE CAMPESTRE
DIA 28 de NOVEMBRO – Sábado das 9:00 às 17:00hs
RETIRO DE MEDITAÇÃO PARA INICIANTES
Introdução ao Budismo Tibetano da linhagem Karma Kagyu. Neste retiro o Lama Zopa Norbu vai apresentar os aspectos mais importantes da Filosofia do Budismo Tibetano, orientar práticas de meditação para acalmar a mente e responder questões dos participantes. Aproveite para conhecer as Stupas (relicários budistas).
Local: Jardim do Dharma – Cotia/SP
Saída: da Rua Jose Maria Lisboa 612 às 7:00 da manhã em sistemas de carona.
Investimento: R$50,00
Opcional: pernoitar no Jardim do Dharma para meditar no período da manhã do domingo, com almoço incluído (+ R$25,00).
FONTE: G1 Globo.com
O exercício de percepção focada e manipulação mental de emoções se tornou uma das técnicas mais populares da nova psicoterapia na década passada. A meditação é baseada nos ensinamentos de um príncipe indiano do século V antes de Cristo, Siddhartha Gautama, posteriormente conhecido como Buda.
Está chamando a atenção de terapeutas de todas as classes, incluindo pesquisadores acadêmicos, analistas freudianos e céticos que vêem todas as marcas de outra mania. Por anos, psicoterapeutas trabalharam para aliviar o sofrimento dando novas molduras aos pensamentos dos pacientes, alterando diretamente o comportamento ou ajudando as pessoas a atingir percepção das fontes subconscientes de seu desespero e ansiedade. A promessa da meditação mindfulness (“consciente” ou “conscienciosa”) é poder ajudar os pacientes a agüentar dilúvios de emoções durante o processo terapêutico — e no final alterar as reações a experiências cotidianas em níveis que as palavras não conseguem alcançar.
“O interesse nisto acabou de decolar,” diz Zindel Segal, um psicólogo do Centro de Vícios e Saúde Mental e Toronto, onde a terapia de grupo citada acima foi gravada. “E acho que uma grande parte disso é que mais e mais terapeutas estão eles mesmos praticando alguma forma de contemplação e querem trazer isso para a terapia.”
Em workshops e conferências por todo o país, estudantes, orientadores e psicólogos de prática privada amontoaram-se em palestras sobre a meditação mindfulness. O Instituto Nacional de Saúde está financiando mais de 50 estudos de técnicas de consciência, contra apenas três realizados em 2000, para ajudar a aliviar o stress, suavizar a vontade dos vícios, aprimorar a atenção e reduzir o desespero e as ondas de calor.
Alguns proponentes dizem que a chegada de Buda na psicoterapia sinaliza uma abertura mais ampla na cultura como um todo — uma forma de acessar a cura mais profunda, um caminho oculto revelado.
Mas até agora, são poucas as evidências de que a meditação mindfulness ajuda a aliviar sintomas psiquiátricos e, em alguns casos, pode fazer com que as pessoas piorem, como foi sugerido por alguns estudos. Agora, muitos pesquisadores temem que o entusiasmo pela prática do Budismo ultrapasse tanto a ciência, que essa promissora ferramenta psicológica pode se tornar apenas mais uma moda.
“Estou muito aberto à possibilidade de que essa abordagem pode ser efetiva, e ela certamente deve ser estudada,” diz Scott Lilienfeld, um professor de psicologia em Emory. “O que me preocupa é o hype, o exagero, a conversa sobre mudar o mundo, essa sedução do guru que o campo da psicoterapia tem a tendência de cultivar.”
A meditação budista chegou à psicoterapia pela medicina acadêmica mainstream. Na década de 1970, um estudante de graduação em biologia molecular, Jon Kabat-Zinn, intrigado por idéias budistas, adaptou uma versão de sua prática meditativa que poderia ser facilmente aprendida e estudada. Era uma versão secular, extraída como uma pedra preciosa das fundações multifacetadas dos ensinamentos budistas, que havia originado uma ampla variedade de seitas e práticas espirituais e atraído 350 milhões de seguidores em todo o mundo.
Na meditação transcendental e outros tipos de meditação, praticantes buscam transcender ou “perder” a si mesmos. O objetivo da meditação mindfulness era diferente: estimular a percepção de cada sensação, à medida que elas se desdobram no momento.
Kabat-Zinn ensinou a prática a pessoas que sofriam de dores crônicas na escola médica da Universidade de Massachussetts. Nos anos 80 ele publicou uma série de estudos demonstrando que cursos de duas horas, ministrados uma vez por semana durante oito semanas, reduziram as dores mais eficazmente que o tratamento usual.
A notícia se espalhou discretamente no início. “Acho que naquela época, outros pesquisadores tinham de ser muito cuidadosos ao falar sobre isso, porque eles não queriam ser vistos como estranhos da Nova Era,” diz Kabat-Zinn, agora professor emérito de medicina na Universidade de Massachussetts. “Então eles não deram o nome de conscienciosa, ou meditação. Depois de um tempo, nós divulgamos tantos estudos que as pessoas se sentiram mais confortáveis com isso.”
Uma pessoa que reparou logo cedo foi Marsha Linehan, uma psicóloga da Universidade de Washington que estava tentando tratar pacientes profundamente problemáticos com históricos de comportamento suicida. “Tratar esses pacientes com alguma terapia de comportamento baseada na mudança só os fez piorar, não melhorar,” disse Linehan em uma entrevista. “Com a situação realmente negra, você precisa de algo diferente, algo que faça as pessoas tolerarem essas emoções tão fortes.”
Na década de 1990, Linehan publicou uma série de estudos dizendo que uma terapia que incorporava a consciência Zen-Budista, “aceitação radical,” praticada por terapeuta e paciente, reduzia significativamente o risco de hospitalização e tentativas de suicídio nos pacientes de alto risco. Finalmente, em 2000, um grupo de pesquisadores incluindo Segal em Toronto, J. Mark G. Williams na Universidade de Gales e John D. Teasdale no Conselho de Pesquisa Médica na Inglaterra, publicou um estudo relatando que oito sessões semanais de meditação mindfulness cortaram pela metade a taxa de reincidência em pessoas com três ou mais episódios de depressão.
Com o Dr. Kabat-Zinn, eles escreveram um livro que se tornou popular, “The Mindful Way Through Depression”. A curiosidade dos psicoterapeutas sobre a meditação mindfulness, antes temporária, transformou-se neste “frenesi constante que vemos acontecendo agora,” diz Kabat-Zinn.
A meditação mindfulness é fácil de ser descrita. Sente-se em uma posição confortável, olhos fechados, preferivelmente com as costas retas e não-apoiadas. Relaxe e note as sensações corporais, sons e temperamentos. Repare neles sem julgamento. Deixe a mente assentar ao ritmo da respiração. Se ela vagar (e irá vagar), gentilmente preste atenção à respiração. Fique com ela por pelo menos 10 minutos.
Depois de dominar o controle da atenção, segundo alguns terapeutas, a pessoa pode virar-se, mentalmente, para encarar um pensamento ameaçador ou perturbador — sobre, digamos, um relacionamento tenso com uma pessoa próxima — e aprender a simplesmente agüentar a raiva ou tristeza e deixá-los passar, sem recair para uma reflexão ou tentativa de alterar o sentimento, um movimento que muitas vezes sai pela culatra.
Uma mulher, uma médica que fazia terapia por anos para gerenciar períodos de extrema ansiedade, recentemente começou a se tratar com Gaea Logan, uma terapeuta de Austin, Texas, que incorpora a meditação mindfulness em sua prática. Essa paciente tinha muito com que se preocupar, incluindo uma criança mentalmente doente, um divórcio e o que ela descrevia como uma “voz interior implacável”, diz Logan.
Depois de praticar a meditação mindfulness, ela continuou a sentir ansiedade em alguns períodos, mas disse a Logan, “Eu posso parar e observar meus sentimentos e pensamentos e sentir compaixão por mim mesma.”
Steven Hayes, um psicólogo da Universidade de Nevada em Reno, desenvolveu uma terapia conversacional chamada Terapia de Compromisso pela Aceitação, ou ACT, baseada em um esforço similar, estilo Buda, de mover-se além da linguagem para mudar os processos psicológicos fundamentais.
“Ter nossa saúde mental definida pelo conteúdo de nossos pensamentos é uma grande mudança”, diz Hayes. “Defini-la pelo relacionamento com esse conteúdo — e mudar esse relacionamento ao sentar-se com, reparar e nos tornar livres de nossa definição de nós mesmos.”
Para todos esses esperançosos sinais, a ciência por trás da meditação mindfulness está dando os primeiros passos. A Agency for Healthcare Research and Quality, que pesquisa práticas de saúde, publicou no ano passado uma abrangente análise de estudos de meditação, incluindo TM, Zen e prática mindfulness para uma ampla variedade de problemas físicos e mentais. A análise descobriu que na maioria dos estudos a pesquisa foi incompleta demais para oferecer conclusões.
Um recente estudo de pesquisadores canadenses, voltado especificamente para a meditação mindfulness, concluiu que ela “não tem um efeito confiável sobre depressão e ansiedade.”
Terapeutas que incorporam as práticas mindfulness também não concordam sobre quando a meditação é mais útil. Alguns dizem que a meditação budista é mais útil para pacientes com problemas emocionais moderados. Outros, como Linehan, insistem que pacientes com severa perturbação mental são os melhores candidatos para essa prática.
Um caso em voga é a terapia baseada na meditação mindfulness para prevenir recaídas à depressão. O tratamento reduziu significativamente o risco de recaída em pessoas que tiveram três ou mais episódios de depressão. Mas pode ter surtido o efeito oposto em pessoas com apenas um ou dois episódios, conforme sugeriram dois estudos.
O tratamento mindfulness “pode ser contra-indicado para esse grupo de pacientes,” concluíram S. Helen Ma e Teasdale, do Conselho de Pesquisa Médica, em estudo de 2004 sobre a terapia.
Apesar de a meditação mindfulness ter efeitos distintos em diferentes conflitos mentais, o desafio para seus proponentes será especificar onde ela é mais eficaz — e logo, levando em conta o crescimento em popularidade da prática.
A questão, segundo Linda Barnes, professora associada de medicina familiar e pediatria na Escola de Medicina da Universidade de Boston, não é se a meditação mindfulness vai se tornar uma técnica terapêutica sofisticada ou escorregar para o clichê de auto-ajuda.
“A resposta para essa questão é sim para ambos,” diz Barnes.
A verdadeira questão, como concorda a maioria dos pesquisadores, é se a ciência vai manter o ritmo e ajudar as pessoas a distinguir a variedade consciente da sem-consciência.
FONTE: G1 Globo.com



